segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Modelos em EaD: Objetos de Aprendizagem

Outra expressão que se tornou cult em Educação a Distância é "objetos de aprendizagem". Cf. publicação da Educause de 2002: METROS, Susan; BENNETT, Kathleen. Learning Objects in Higher Education; em 2004, o NMC publicou Guidelines for Authors of Learning Objects (Rachel S. Smith).

A expressão é infeliz, pois ressalta a coisificação a que a educação tem sido reduzida, principalmente nos modelos de EaD fordistas. Enquanto o ser-em-si para Sartre é a coisa que não se conhece, que não tem consciência de si, o ser-para-si é aquele que tem consciência de si, que consegue se colocar como objeto para si próprio. Não queremos uma educação povoada de seres-em-si (coisas) desconectadas e descontextualizadas, mas de sujeitos que interajam enquanto sujeitos, de seres-para-si e para-os-outros. Não queremos um conteúdo objetificado de aprendizagem que se torne assim tão distante dos alunos-sujeitos, ensimesmado. Por que então utilizar a expressão "objetos de aprendizagem" se já temos nomes para diversos outros recursos que dão conta do recado, como textos, imagens, animações, vídeos etc.?

Mas deixando de lado a implicância com a expressão, o que significa objetos de aprendizagem?

Robson Santos da Silva (2011, p. 22) explora algumas definições, como a do IEEE: elementos que podem ser utilizados para aprendizagem, educação e treinamento. Mas ora, continuamos aqui sem avançar muito! Para Rehak e Mason (apud SILVA, 2011), a essência dos objetos de aprendizagem repousa sobre 4 características fundamentais: acessibilidade, reutilização, durabilidade e interoperabilidade. Assim, a possibilidade de serem modificados e operados a partir de diversos softwares e ambientes virtuais definiria o âmbito dos objetos de aprendizagem.

Se pensamos em um curso ou alguns recursos, pode ser interessante imaginar que eles possam ser transferidos sem maiores problemas técnicos de um ambiente ou ferramenta para outro. Entretanto, o sentido com que a expressão tem sido utilizada é mais delimitado: um pequeno elemento atomizado de um curso (algumas telas de Flash, um pequeno texto, uma atividade pontual etc.) que não pode ter conexão com outro objeto de aprendizagem (porque deve ser possível vendê-lo ou utilizá-lo separadamente do resto) e que está ligado a um objetivo de aprendizagem específico. Uma coisa-em-si sem relação com as outras, autônoma, que basta a si mesma, stand-alone. Nesse sentido, objetos de aprendizagem estão associados com as noções de bits de conhecimento, nacos, componentes, nozes, unidades etc. Essas imagens ajudam a reforçar a metáfora de uma educação-lego, como uma montagem de elementos soltos e produzidos sem intenção de conexão, ajudando assim naturalmente a formar indivíduos fragmentados.

 
Isso gera inúmeros problemas, como por exemplo o desafio de um objeto de aprendizagem ser produzido de maneira descontextualizada, pois a dependência do contexto afetaria sua portabilidade. David Wiley, em The Reusability Paradox (2001), discute essa questão, argumentando que a reusabilidade e a eficácia pedagógica caminham em direções opostas:
           

Se um objeto de aprendizagem é útil em um contexto particular, não seria reutilizável em um contexto distinto; e se um objeto de aprendizagem é reutilizável em muitos contextos, não seria particularmente útil em nenhum. A esperada neutralidade de um objeto de aprendizagem (assim como do objetivo de aprendizagem específico ao qual ele estaria associado) seria incompatível com uma educação dialógica e interativa, mas mais adequada à educação bancária criticada por Paulo Freire.

Nessa direção, surgiu a noção de repositórios de objetos de aprendizagem, como se fosse possível depositar as peças do lego em uma caixa, selecionar algumas, montar um boneco e... estamos educando (ou educados)!



A perspectiva deste post classifica os objetivos de aprendizagem no mesmo campo semântico em que classificamos nesta série no blog os objetivos de aprendizagem, as formas de biscoito e a tutoria, em oposição a outro campo semântico, da interatividade e do conectivismo.

O que você pensa sobre os objetos de aprendizagem?

Referência

SILVA, Robson Santos da. Objetos de aprendizagem para educação a distância. São Paulo: Novatec, 2011.

Observação: as imagens do post não foram construídas com intenção de ironia - são retiradas de publicações que as utilizam como ilustrações para o conceito. Cf. mais ilustrações e discussões sobre o conceito no EduTech Wiki.

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Este vídeo continua a conversa lá no YouTube:

Reações:

20 comentários:

  1. Olha, até concordo que não podemos reduzir a educação a objetos, no entanto em se tratando de conteúdos para serem distribuídos na rede, “os objetos de aprendizagem” tem sentido exatamente por possuírem as características citadas. Afinal, um objeto de aprendizagem, que seja texto, imagem, ou vídeo em condições de ser reutilizado na EaD, necessita de padrões que só podem ser entendidos por especialistas, não é mesmo?

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    1. Josete, repare que quanto aos padrões técnicos não há questionamentos no texto, mas sim em relação aos padrões pedagógicos.

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  2. A definição de objeto de aprendizagem que coloquei em minha dissertação de mestrado defendida há menos de um mês na USP e que versou sobre o tema foi:
    - Unidades digitais pedagógicas que agem como elementos vetoriais catalisadores de ações e reações nos processos de produção, aquisição, compartilhamento e construção dinâmica do conhecimento - é claro que para chegar nesse enuinciado eu li e reli diversas vezes os autores citados no texto acima e outros mais.

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    1. Douglas, a dissertação está disponível online?

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  3. Não explorei ainda os links do texto e desta forma poderei depois mudar de opinião ou ampliar, ok.
    Segue então uma primeira reflexão, de que lado se encontrariam os tais objetos de aprendizagem, do lado de quem ensina ou do lado de quem aprende?
    Quando aquele que fala e se propõe como mediador, este objeto de aprendizagem poderia ser mais personalizado a alguns alunos.
    Mas na verdade o verdadeiro objeto de aprendizagem deve ser construído pelo aluno, pois as aprendizagens alem de diversas e diferenciadas apontariam onde o mediador poderia intervir.
    O que penso é em uma inversão de posicionamento e não de valores.
    mas volto ainda, ok

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    1. T, a ideia dos alunos como autores é uma das marcas da web 2.0 - mas não precisa ser de objetos de aprendizagem.

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    2. Talvez eu não tenha me feito entender. A autoria e a autonomia realmente são marcas da web 2.0.
      Não faço referencia a autoria de objetos de aprendizagem mas sim de utilizar os objetos de aprendizagem para a sua própria aprendizagem.
      Cada aluno pode encontrar o melhor meio de se expressar.

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  4. hummm, acabei de ler os links, rs ... otimo.

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  5. Pessoal,
    não resisto em dar meu pitaco mais uma vez, apesar de apenas há dois anos estar trabalhando e aprendendo alguma coisa sobre objetos de aprendizagem, ao implementar junto com alguns professores do curso de Letras da UFPB Virtual o LOAL - Laboratório de Objetos de Aprendizagem em Linguística. Tivemos a idéia de implementação do LOAL por conta de observamos que, diferente de outras áreas, pouco existia em relação ao ensino superior e pós que focalizasse teorias linguísticas, com isso cada professor começou a pensar em objetos a partir dos seus trabalhos de pesquisa e da sua prática docente em linguística.

    Bom, dito isso, realmente concordo com a provocação do texto sobre que o fato de já usarmos objetos pra aprendizagem faz tempo e que eles realmente podem ser usados de forma descontextualizada, mas realmente gostaria de comentar alguns pontos em que penso noutra direção:

    1) O texto meio que generaliza a forma de uso dos objetos, isso me incomoda.
    2) De novo, me parece que tudo que é tradicional é meio que chutado pra escanteio, e não tenho como ir ao encontro dessa visão, pois apesar de concordar com várias críticas em relação a esse modelo tradicional, não posso concordar com o seu fracasso, isso vai de encontro à minha experiência, além de ser fruto desse modelo, a grande maioria das pessoas que conheço são frutos desse modelo e são bem sucedidas profissionalmente, são criativas, são antenadas e conectadas.

    3) Em relação a minha pequena e inicial experiência com os objetos, não vejo como diferente de se trabalhar com qualquer material, um vídeo, um texto, um jogo, etc. Tudo pode ser usado de forma descontextualizada e fragmentada, mas pode também ser usada de forma contextualizada e conectada e colaborativa. A questão é que assim como o sentido de um texto não está no texto e sim na relação que se estabelece entre ele e o leitor e ai há a construção do sentido propriamente ativa, o aprendizado ou "significado pedagógico" está muito além do objeto, essa construção ou co-construção do aprendizado vai depender justamente de como ele será contextualizado, assim como é com qualquer outro material.

    Dessa forma, realmente acho que todo aprendizado passa por um momento de fragmento, de especificidade, não acredito em termos uma visão Holística todo o tempo, se fragmentamos podemos perder algo, mas se não fragmentamos também podemos perder, acho que o específico e o todo tem de ser vistos de forma equilibrada. A própria metáfora do lego pode ser interpretada como foi posto no texto, em que não há a intenção de conexão, mas pode também ser interpretada de forma oposta, em que cada peça já foi gerada pensando na conexão com a outra, que cada peça sozinha inclusive não constrói nada, mas se organizadas de algumas maneiras podem ser perfeitamente conectadas e em interação constante, etc. etc.

    Acho que falei demais!

    Abraços

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  6. Márcio, não falou muito não - não há limites para as falas aqui, só se existirem tecnicamente no blog, mas aí você pode criar outros comentários. E é sempre um prazer ler suas reflexões.

    Qual é o link do LOAL?

    O texto explora a teoria que orienta a prática da produção de objetos de aprendizagem. Deve haver casos que divergem da descrição, então podemos analisá-los aqui.

    Não estamos tentando chutar para escanteio tudo o que é tradicional, mas diferenciar 2 modelos de EaD. Aliás, objetos de aprendizagem não são tradição - são um conceito novo. O ensino "tradicional" talvez seja menos fragmentado nesse sentido.

    Um vídeo, um texto e um jogo podem fazer parte do material de um curso de EaD. A discussão aqui é que, como objetos de aprendizagem (e seguindo a teoria discutida) eles devem ser produzidos desconectados do resto do curso, atomizados. Esse é um dos pontos questionados no texto. A descontextualização e a desconexão parecem fazer parte do próprio conceito de produção de objetos de aprendizagem. E isso não é fortuito - faz parte de um grande modelo que inclui outrss coisas que estamos discutindo aqui, como objetivos de aprendizagem e tutoria, e outras que ainda vamos discutir, como avaliação e design instrucional.

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  7. João,
    infelizmente ainda não temos o link do LOAL, o site está em construção e nele ficarão todos os objetos criados além de links para outros objetos e materiais que focalizem questões de linguística. Assim que estiver pronto divulgo!

    Não quis dizer que os objetos são tradição, mas é que em alguns momentos no texto essa tradição pode emergir, como na citação a Paulo Freire. E não sendo fragmentado, mas conectado com as outras discussões do blog achei pertinente tovar de novo na questão da tradição.

    Eu entendi que os objetos podem ser produzidos desconectados e que existe um modelo teórico que prega isso, mas aceitando o chamado do texto para discutir, quis mostrar que os mesmos objetos podem ser interpretados e mesmo produzidos de forma conectada e contextualizada, esse era o ponto!

    abraços e a recíproca é sempre verdadeira em relação á leitura de minhas reflexões.

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  8. Olá a todos, também não quero deixar de contribuir neste tema. Posso estar errada, mas ainda acredito que o conhecimento ao ser apresentado na forma de objeto(s) de aprendizagem (se este conhecimento for concebido de acordo com critérios de entendimento entre as partes interessadas) oferece condições para que os interessados possam, no seu contexto específico, participar na construção, na edificação de outra representação desse conhecimento (imagine-se p. ex. a formulação de um problema onde uma fórmula, uma teoria poderá ser requerida) através do ead, redes sociais,...
    Outro problema, para além da falta de entendimento que referi, é que a maioria dos OAs são propriedade das instituições ou das pessoas que os concebem, ao contrário de avanços mais recentes em recursos educacionais abertos que permitem o acesso livre….
    Direcionando-me também para a metáfora do LEGO, a minha perceção vai ao encontro do que foi referido pelo Marco Leitão, questionando-os sobre o seguinte: será que a montagem das peças de um LEGO não é um bom exemplo da construção/ edificação de representações, quer da realidade ou da imaginação das crianças/adolescentes/adultos/…? No entanto acredito que, por si só, esta metáfora aplicada a OAs e consequentemente aos objetivos de aprendizagem não seja suficiente para a compreensão e sua aplicação nos ideais do conectivismo, no que se refere p. ex às ligações externas. Por isso penso que haverá necessidade de se estabelecer outras comparações, analogias ou metáforas que satisfaçam a educação dialógica, interativa, ...

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  9. Olá professor João, olá colegas

    Por enquanto deixo registrado que estou achando muito interessantes as colocações até agora, mas ainda não consegui me posicionar mais contundentemente do que expressarei abaixo: concordo com a fala do prof João e também com a fala do colega Márcio (por favor, não entendam que estabeleci que vocês estão em camopos opostos...).

    Desculpem a sinceridade, mas minha tendência é permanecer na seguinte zona de conforto: um bom OA, assim como um bom game, uma boa animação, um bom material textual, um bom áudio (por que não continuar chamando-os de materiais de estudo ou materiais didáticos??)serão excelentes para tornar o processo de aprendizagem bem sucedido, desde que sua escolha seja orientada para proporcionar: 1) aprendizagem significativa (o conhecimento-para-si?) e 2) a participação ativa dos alunos.
    Mas estou ciente de tenho alguns problemas a ameaçar a minha zona de conforto: o que é um bom OA,um bom game, uma boa animação? Como posso fazer a escolha correta? Como garantir a participação ativa? Como avaliar se houve aprendizagem significativa??

    []s a tod@s

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  10. Aproveitando a inclusão da figura do REA, a questão da Zona de Conforto (ou seria desconforto), a a incompletude conceitual natural de conceitos contempladas nas replicas e tréplicas dos colegas segue minha contribuição permnentemnte incompleta.
    Olha, .... sinceramente, .... este tópico sobre OAs e sua contribuição ou não para um modelo x ou y de EaD me parece sem sentido. Se procurarmos conceitos de OA e REA e Gameficação (entre outros) veremos que eles são instrumentos que emergiram dentro de contextos sociais (e dentro do social temos o educacional) e tecnológicos distintos e de certa forma interligados e causativos (um se apoiando nos ombros do antecessor - em termos de tempo). A incorporação destes conceitos é que define mudanças ou não na educação. Peguemos como exemplo o próprio conectivsmo, enquanto teoria educacional ou não, isto é o de menos, tanto pode ser utilizado para um modelo conservador no caso dos xMOOCs, quanto para um modelo inovador no caso dos CMOOCs. E sigo aqui na constante reconstrução de meu saber. Segue um complemento para ser recosntruido: http://bit.ly/UnK4aw

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    1. Olá Breno,
      pois entendo que possa não fazer sentido falar-se de OAs sem os integrarmos nos REA, já que estes últimos foram definidos de modo a incluir recursos de aprendizagem (OAs, repositórios,…), além de outros.
      Stephen Downes em 2007 no artigo intitulado “Modelos para a sustentabilidade dos REA” (veja-se em http://tinyurl.com/3ekgoo), concluiu com a ideia de que os REA devem ser usados num quadro mais amplo de voluntários, incentivos, comunidades, co-produção, partilha,…, para onde nos queremos dirigir.

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    2. Concordo Maria Filomena e foi esta minha intenção ao colocara que "Olha, .... sinceramente, .... este tópico sobre OAs e sua contribuição ou não para um modelo x ou y de EaD me parece sem sentido". O conceito de OA dentro do contexto tecnologico atual esta muito defasado, bem como algumas críticas aos mesmo tempo tornaran-se infundadas na configuração de OA dentro dos REAs.

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  11. Olá a todos, parece-me relevante referir a importância da dimensão do OA. Quanto mais abrangente for, menos possibilidades tem de ser reutilizado noutro contexto.
    No entanto, a reutilização do OA não se limita à sua aplicação em diferentes contextos. Parece-me bem mais importante a reutilização no mesmo contexto, como por exemplo, uma outra edição de um mesmo curso.

    Como sempre, ou quase sempre é preciso reformular alguma coisa, que sentimos e reparamos que correu menos bem. Neste caso, a dimensão do OA já faz diferença. Quanto mais pequeno, menos dor de cabeça nos dá para refazer. Mais conteúdo é passível de ser reutilizado.

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  12. Este vídeo continua a conversa lá no YouTube: http://youtu.be/bJcXTLwGNx0

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  13. nossa, deixei um vídeo e vejo que posso não ter definido bem a minha compreensão de objetos de aprendizagem, desta forma, deixo o registro de que a articulação pensada, dos segmentos que compõem um currículo, ou etapa de sequencia, podem ser sugeridos a partir do aluno. Quem deve aprender é o aluno, e o objeto onde ele, o aluno, efetua sua aprendizagem pode ser de sua livre escolha. Já pensaram assim?
    e caminhamos para isso, este ponto para mim ultrapassam os tais estilos e aprendizagem, o canal por onde se deve demonstrar a aprendizagem pode partir do aluno, tanto quanto o professor deve proporcionar a contextualização ao seu livre arbítrio.

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  14. Por gentileza, alguém poderia fazer um repasse de como montar ou se tiver pronto, um programinha para alunos do EF, pois projeto ja li ǘarios, mas não sei montar.

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