Um post da autoria do Professor António Dias de Figueiredo.
Correspondendo ao desafio do Paulo Simões para que
escrevesse "um pequeno post, em tom de provocação", decidi
pronunciar-me de improviso sobre os MOOCs (Massive Open Online Courses),
centrando-me na variante cMOOC, de inspiração conectivista. A outra variante
dos MOOCs, os xMOOCs, da linhagem MIT/Stanford, mais tradicional e centrada nos
conteúdos, parece-me menos interessante dos pontos de vista pedagógico e
sociológico, pelo que a deixo de parte. Irei pronunciar-me sobre as principais virtudes
e limitações dos cMOOCs, começando pelas virtudes:
São exploratórios.
O desenvolvimento dos cMOOCs segue um percurso exploratório, de ciclos de
tentativa-erro-reflexão, mais próximo das práticas do design do que das das
ciências tradicionais. Em ambientes sociais complexos, imprevisíveis e
orgânicos como os que caracterizam os nossos dias, esse tipo de abordagem oferece
oportunidades de emergência e criatividade colectiva que seriam impossíveis de conseguir
com abordagens hierárquicas tradicionais.
São disruptivos.
A exploração dos cMOOCs na periferia dos sistemas conservadores vigentes, e o
impacto mediático que têm vindo a atrair, conferem-lhes elevado potencial
disruptivo. Uma inovação é disruptiva
quando nasce à margem dos mercados ou sistemas sociais tradicionais e se afirma
pela conquista gradual de clientes ou de utentes que toleram as suas
imperfeições iniciais e contribuem para a sua superação. É exemplo de inovações
disruptiva o computador pessoal, que nasceu como brinquedo para crianças e
famílias e que, em cerca de vinte anos, evoluiu ao ponto de eliminar dos
mercados os computadores profissionais. Outro exemplo é a Internet, que nasceu
como mera rede para cientistas, com falhas e anomalias frequentes, e se transformou
em poucos anos na mais poderosa rede (de redes) do mundo.
São desconstrutivos.
A desconstrução, um conceito da análise literária, é hoje também entendida, em
sentido mais genérico, como prática intelectual. Desconstruir é pôr em causa as
ideias instaladas e assim concluir sobre se ainda são válidas ou se devem ser
renovadas. A desconstrução contém o embrião do futuro, na medida em que, na
ausência de reflexão crítica sobre as ideias dominantes, o futuro será igual ao
passado. Num meio como a educação, onde quase não existe o hábito de questionar
as grandes ideias instaladas, os cMOOCs têm o mérito de o fazerem.
São incubadores. Os
cMOOCs são espaços experimentais vivos, onde podem ser postas à prova as mais
variadas ideias sobre práticas pedagógicas, métodos de avaliação da
aprendizagem e, mesmo, abordagens para a exploração do potencial da inteligência
colectiva na educação. Permitem, assim, incubar novas práticas, fazê-las
evoluir e consolidá-las, até que possam ser transpostas para os contextos
tradicionais.
São contextuais.
Os próprios cMOOCs são contextos de aprendizagem, co-construídos e adaptados
por quem está a aprender. Ajustam-se, assim, às visões que há muito defendo da
primazia dos contextos sobre os conteúdos nos processos de aprendizagem. O
mesmo não acontece com os xMOOCs, que são predominantemente centrados sobre os
conteúdos.
Quanto às limitações dos cMOOCs, as que se me afiguram mais
notórias são as seguintes:
Ausência de modelo do
negócio. Não existe, para já, uma lógica de mercado, de rendimentos e de custos
compatível com os cMOOCs. Tal como acontece com os sistemas de publicação
científica em acesso livre e os recursos educativos abertos, a sustentabilidade
dos cMOOCs assenta nas economias da reputação. A questão que se coloca é a de
saber se, e como, o modelo cMOOC poderá, algum dia, vir a ser extrapolado e
generalizado para as lógicas de mercado.
Acreditação
problemática. A lógica da complexidade e dos grandes números que
caracteriza o modelo conflitua com o apuramento fiável do valor que terá para o
mercado cada uma das pessoas que conclui um cMOOC. A compatibilização entre
cMOOCs e avaliação fidedigna é um dos problemas mais interessantes do modelo e
abre vastas perspectivas para a investigação de alternativas de avaliação que
façam sentido no seio de sistemas sociais adaptativos complexos.
Elevadas taxas de
abandono. Como seria de esperar num sistema sujeito a leis de escala ou leis de
potência, grande parte das pessoas que frequentam um cMOOC fica pelo
caminho. Segundo a lógica das leis de escala, a questão não será preocupante, sobretudo
tendo em conta que se trata de cursos gratuitos. Acresce que, mesmo quem não
chega ao fim, pode retirar grandes benefícios. No entanto, a eventual evolução
do modelo para lógicas de mercado justifica que se investiguem orgânicas que
permitam melhorar as taxas.
Escalabilidade reduzida.
Um dos maiores desafios da educação nos nossos dias é o da descoberta de
processos pedagógicos e de avaliação que tirem partido dos sistemas sociais
adaptativos complexos, das leis de escala e, obviamente, das redes sociais
para, sem exigirem recursos docentes adicionais, se tornarem aplicáveis a
populações alargadas. Trata-se de um domínio praticamente inexplorado, do qual
depende, no entanto, grande parte do sucesso dos cMOOCs. Dele poderão depender,
também, os próprios sistemas de ensino
universitário, assoberbados que estão, por razões financeiras, com a
necessidade de diminuírem, onde for possível, as relações diretas docente/aluno.
Dificuldade de
autenticação dos estudantes. Embora, no imediato, este não seja um problema
crítico, a eventual transposição do modelo cMOOC para o mercado, bem como a
adopção de orgânicas de acreditação, justificam que se procure investigar
métodos fidedignos de autenticação dos estudantes
.
Penso que o debate deste breve conjunto de virtudes e
limitações dos cMOOCs poderá contribuir para aprofundar a reflexão acerca de
modelos de ensino a distância e iluminar algumas das problemáticas que se
perspectivam no seu futuro.